terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Um Conto Fantástico Para o Haiti

O blog FC & Afins iniciou uma campanha para arrecadar fundos para ajudar o Haiti. Vários feras da FC e Fantasia nacionais estão colaborando com textos e pontes para facilitar doações de todos os tipos. Achei a campanha mais que justa e decidi que não poderia ficar fora dela, certo? Então, abaixo vai o meu conto.

Espero que gostem!

O Outro Lado do Espelho

“­­— Sonhos são sinistros. Todos eles. Até os bons...”

CAROL QUERIA ESTAR louca, mas ainda não sabia disso. Como qualquer criança de oito anos, o seu entendimento acerca do que significava loucura era bastante limitado, no entanto, ainda assim, algo a fazia perceber que qualquer coisa que se lhe apresentasse como uma explicação alternativa para o que estava sentindo seria melhor do que a realidade diante de seus olhos, por trás das pálpebras cerradas.

O que Carol estava sentindo chamava-se medo. Não um medo qualquer, desses que a gente sente quando começa a imaginar coisas que não deveríamos imaginar, quando é noite, quando estamos sós. Era uma assustadora certeza – a certeza de que quando abrisse os olhos ele estaria ali, do outro lado da cama, com suas órbitas vazias e sua pele azul.

Carol sentiu como se os seus ouvidos estivessem cheios de água. Suas mãos gorduchas e trêmulas seguraram o lençol com um pouco mais de força. Sabia que não adiantaria gritar, sabia que se gritasse ninguém a ouviria, isso já havia acontecido outras vezes.

Papaizinho do céu, por favor, não deixa que ele me pegue, não deixa que ele me...

Enquanto rezava mentalmente a mesma prece de todas as noites, o lençol parecia se tornar mais e mais apertado, quase sufocante.

... pegue. Não deixe que ele me...

Ela não agüentou a falta de ar e descobriu o lençol até o pescoço. Sua testa suava em bicos. Seus olhos estavam cerrados com tanta força que seus lábios ficavam esticados, como num sorriso esquisito. Então ela sentiu uma respiração gelada bem em seu rosto.

Papaizinho do céu!

Era uma respiração adocicada, com cheiro de flores, e gélida como a lufada de ar de um freezer cheio de sorvete. Sem hesitar um segundo, Carol abriu os olhos e o encarou.

O garoto a encarou de volta. Ficaram se olhando por um tempo. O garoto, com sua pele azul e seus olhos completamente negros – tão negros que eram quase indistinguíveis por trás da franja espessa de seus cabelos ensebados – não falou nada. Carol o encarava em transe, já não sentia medo, já não sentia nada.

— Meu nome é Nai-mu-ena — disse o garoto, com uma vozinha quase inaudível, tão aguda que parecia falar dentro da cabeça de Carol.

Ela tentou falar, mas tudo o que saiu de sua garganta foi um silvo sufocado.

— Você não pode falar — disse Nai-mu-ena —, mas você não precisa falar, eu entendo tudo. Eu sei tudo.

Ele encostou o indicador no nariz de Carol com o mesmo cuidado que se toca alguma coisa sagrada, intocável, e depois lambeu a ponta do dedo. Ficou olhando para sua mão azul por alguns instantes e então disse:

— Eu venho dali — e então apontou para o espelho grande do outro lado do quarto, com armação de mogno.

Carol mantinha os olhos esbugalhados fixos no rosto tristonho daquele garoto azul de nome engraçado. Não conseguia se mexer, não conseguia falar ou mesmo piscar, mas conseguia vê-lo perfeitamente bem.

— ...Tão estranho...

— Somos todos estranhos — disse Nai-mu-ena em resposta.

O que você vai fazer comigo?

— Eu fui enviado.

— O que você vai fazer comigo?

— Levá-la de volta pra casa — E apontou para o espelho.

Ambos conversavam sem abrir a boca. Nai-mu-ena mantinha a expressão facial inalterável desde que chegara, era como se não tivesse nenhum tipo de sentimento.

Você está preparada?

— Por que você quer me levar?

— Já lhe disse, eu fui enviado.

— Por quem?

— Não importa agora. Você está preparada?

Carol queria chorar, mas não conseguia; tentou gritar, mas sua voz não saiu.

Você está preparada?

Nai-mu-ena não esperou resposta. Carol sentiu que seu corpo flutuava. Podia ver tudo, mas não conseguia mover um único músculo.

Meu papaizinho do Céu...

Nai-mu-ena não disse nada diante da prece de Carol, mas sua expressão finalmente se alterou. Ele lhe pareceu triste.

Ela percebeu que seu corpo se aproximava do espelho, sentiu os pés encostarem na superfície de vidro e serem tragados por ela, o espelho assumia uma constituição aquosa à medida que ela passava por ele, através dele.

Um cheiro adocicado foi se tornando cada vez mais forte. Nai-mu-ena ficou observando a menina ser levada e só depois que viu a pontinha loira da cabeça afundando na superfície aquosa, foi que ele finalmente pareceu satisfeito.

Nai-mu-ena caminhou calmamente e atravessou o espelho, que logo em seguida se partiu.

Roberto Denser

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Doações

Médicos Sem Fronteirasdoações no site

Nome: Embaixada da República do Haiti
Banco: Banco do Brasil
Agência: 1606-3
CC: 91000-7
CNPJ: 04170237/0001-71

Nome: Comitê Internacional da Cruz Vermelha
Banco: HSBC
Agência: 1276CC: 14526-84
CNPJ: 04359688/0001-51


Nome: Movimento Viva Rio
Banco: Banco do Brasil
Agência: 1769-8
CC: 5113-6
CNPJ: 00343941/0001-28

A ONG ambém está recebendo doações de medicamentos, alimentos enlatados, materiais de primeiros socorros e pastilhas de cloro para purificação de água para enviar a Porto Príncipe. As doações devem ser entregues na sede do Viva Rio, na Rua do Russel, 76, no bairro da Glória, no Rio, das 9h às 18h. A ONG está organizando um esquema de plantão para receber as doações no final de semana.

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segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Horror & Humor – Parte 1 de 3

 

batman-dark-knight-joker “Garoto… eu sou o Coringa. Eu não mato pessoas aleatórias. Eu mato quando é engraçado. O que tem de engraçado em te matar?”

(Coringa em O Que Aconteceu Com o Cruzado de Capa? Volume 1 de 2) 

Existe alguma fórmula mágica para se escrever uma boa história de horror? A resposta certamente é: Não. Uma boa história de horror não precisa seguir nenhuma fórmula pronta, pois depende principalmente do talento que o autor tem (ou não) de trabalhar com determinados elementos, características comuns de boas histórias.

Qualquer pessoa que tenha lido algum livro de Stephen King, Clive Barker ou Peter Straub, poderá observar facilmente a presença de três elementos bastante comuns: Erotismo, Humor (geralmente um humor negro, é claro) e Morte. Pensando nisso, resolvi fazer uma pequena pesquisa no Twitter, perguntando aos meus seguidores quais desses três elementos eles consideravam, como leitores, indispensável à Literatura de Horror. A maioria respondeu – O que até certo ponto me surpreendeu – que o elemento mais indispensável a uma boa história era exatamente o humor.

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A Larissa Ventura, do blog Endless Dark, acrescentou inclusive que “Nada melhor do que um assassino/monstro/criatura com sarcasmo!”, com o que concordo plenamente.

Não é nenhum segredo que sempre preferi os vilões (eles costumam ter motivações muito mais fortes que os mocinhos, diga-se de passagem), principalmente àqueles que unem a todo seu sadismo uma boa dose de sarcasmo, cinismo, humor negro. Claro, o humor não precisa ser característica exclusiva do vilão. Muitas vezes ele vem de graça na situação inusitada em que o mocinho se encontra (muito fácil de perceber em QUALQUER conto de King) ou mesmo na forma como ele[s] encara[m] essa situação. Quer um exemplo? Estação Chuvosa, da antologia Pesadelos e Paisagens Noturnas Vol. II é um ótimo exemplo.

E se quiser prestigiar este que vos escreve com sua leitura, basta dar uma passadinha lá na Germina e ler o conto BR 230, onde também há algum coisa de humor, se quer saber. ;-)

Quanto aos outros elementos, falarei deles nos próximos posts (Morte e Erotismo, parte 2 e 3, respectivamente). Até lá.

 

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terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Os 10 Piores Livros que Li em 2009

Algumas considerações, baby:

 

Uma vez iniciada a leitura, eu nunca, NUNCA, paro até concluí-la. Isso pode ser um processo muito doloroso, como vocês devem imaginar (como quando eu decidi ler os livros do Balzac), mas é algo do qual eu não abro mão. Mesmo uma leitura desagradável pode nos proporcionar alguma informação útil, qualquer coisa que se aproveite.

Outra coisa que nunca faço (posso até fazer num impulso, mas só de sacanagem, nunca a sério) é criticar algo que não conheço. Não critico livros que não li, filmes que não vi, músicas que não conheço, esse tipo de coisa.

Para finalizar: Isso pode até acontecer, mas eu sempre evitarei ao máximo assistir um filme adaptado sem antes ler o livro.

Só para constar.

Deixando as manias de lado, aqui vai a lista dos piores de 2009, como prometido. Ah, lembrem-se: O fato de terem sido os piores não quer dizer necessariamente que eles sejam muito ruins, é que a concorrência esse ano foi meio pesada, né não? Abaixo:

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Crepúsculo – Stephenie Meyer

Alguém duvida? É assim, galera: O livro é ruim, convenhamos, mas não é tão ruim quanto eu imaginava, antes de lê-lo. Tive que ler porque precisava formar minha própria opinião, tomar um partido etc., então fui lá: Peguei a brochura com uma das sobrancelhas levantada (Vampiros que brilham no sol?), exageradamente desconfiado e “vupt”, fui lendo até terminá-lo (o que aconteceu em dois dias, diga-se de passagem). A boa notícia é que não é tão ruim ao ponto de eu não querer ver o filme ou ler o resto da série (como eu disse, uma vez iniciada a leitura, tenho de concluí-la, e isso inclui sagas inteiras), mas não é um bom livro, sinto muito. É apenas um livro de mulherzinha, escrito por uma mulherzinha que não entende picas de vampiros, e cheio de fantasias sexuais, desejos e idealizações acerca do homem ideal. O livro também está cheio de absurdos: Um vampiro trabalhando como médico cirurgião (o que seria equivalente a um padre trabalhando como diretor de filme pornô); vampiros que brilham ao entrar em contato com o sol (O que me faz perguntar de onde DIABOS ela tirou essa ideia!) e, o mais inusitado de tudo, vampiros que frequentam à escola. É mole? Lamento estourar a bola dos fãs, mas eis uma grande verdade: Por mais que digam o contrário, Crepúsculo NÃO É um livro sobre vampiros. É um livro sobre crises e idealizações adolescentes. Ponto.

O Negociador – John Grisham

Não é por nada não, mas eu tenho certeza que, no meio do livro, o John Grisham encheu o saco e resolveu acabar logo com aquilo. O resultado é o pior livro que já li dele. Não recomendo de modo algum. Sorry.

Ecce Homo – Friedrich Niezsche

Também gosto de ler os livros do bigodudo (já gostei mais, é verdade, mas ainda leio uma coisa ou outra), mas esse é a maior porcaria de toda a história da filosofia. Não tem pra onde correr. Ah, ainda sobre Nietzsche: Ele é um ótimo iconoclasta, excelente para adolescentes.

A Duquesa de Langeais – Balzac

Acho que falta um pouco mais de fluxo nos livros do Balzac e isso acaba tornando seus livros, os que eu li, um verdadeiro saco. Apesar disso, ainda pretendo ler todos os seus livros (e o filho da mãe tem um monte deles, pode apostar).

Neve – Orhan Pamuk

Nobel de literatura? Faça-me o favor! O livro só não é mais chato que a cinebiografia de uma lesma ou um livro de Direito Comercial!

O Caçador de Picas Pipas - Khaled Hosseini

Li porque o meu amigo Roberto Menezes disse que, no futuro, esse seria um “clássico da literatura universal!” Quer saber minha opinião? Muito barulho por nada. Ah, e por incrível que pareça, o filme consegue ser ainda pior que o livro.

Vendo o meu por cinquenta centavos, se lhe interessar. ;)

Cartas a Nelson Algren – Simone de Beauvoir

Gosto de cartas, mas as cartas de Beauvoir quase conseguem o que os livros do Balzac não conseguiram: Me matar de tédio.

Uma Vida – Guy de Maupassant

Eu até que gosto do Guy, mas esse não desceu não. Sorry.

A Outra Volta do Parafuso – Henry James

Me falaram que era assustador, apavorante, OH-MEU-DEUS!, eu iria ficar noites sem dormir. O efeito foi exatamente o contrário: Toda vez que começava a ler, me dava sono. Acho que era… PEGADINHA DO MALANDRO!

Uma Espiã na Casa do Amor – Anaïs Nin

Não é por nada não, mas se a Anais Nin estivesse viva eu a mandaria uma cópia desse livro triturada em um zilhão de pedacinhos.

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Aí está a listinha dos piores livros que li em 2009. Não vão me bater, hein? ;-)

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domingo, 27 de dezembro de 2009

Os 10 Melhores Livros Que Li em 2009

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Final do ano chegando e, como não poderia ser diferente, aqui vai a minha listinha dos melhores livros que li no ano de 2009. Lembrando mais uma vez que a lista não é classificatória, hein?

Galilee – Clive Barker

Sempre considerei Clive Barker o filho da mãe mais assustador do mundo. Inclusive, cheguei a afirmar no Twitter que sou uma espécie de Barkófobo, pois até mesmo o nome dele me assusta. Tudo isso é culpa de um trauma sofrido na infância, quando fiquei doente e não pude ir à escola. Era uma tarde ensolarada de uma quarta-feira amarela e eu fiquei sozinho em casa, pois meus pais haviam saído e minha irmã estava na escola. Peguei um VHS que haviam me emprestado dias antes (e o qual ainda não tomara coragem de assistir) e coloquei no video cassete. O filme era Hellraiser – Renascido do Inferno (1987), escrito e dirigido por Clive Barker e, apesar de ter conseguido vê-lo até o fim, fiquei um mês inteiro sem conseguir pregar os olhos.

Apesar disso, porém, os livros dele nunca me passaram batido e Galilee entra no hall dos melhores livros que já li. Um calhamaço de 700 páginas, mas que é impossível parar de ler!

LOVE – A História de Lisey – Stephen King

Sou um fã assumido desse que considero o maior escritor de terror de todos os tempos e já era bastante previsível que ele apareceria por aqui. LOVE é uma história intrigante e com uma linguagem bastante particular, tão bom quanto qualquer outro livro de Stephen King. Contudo eu não o recomendaria para alguém que nunca leu nenhum de seus livros.

Dom Quixote – Miguel de Cervantes

Impossível parar de ler e impossível parar de rir! O livro mais irônico e engraçado que já li até hoje. Apesar de haver planejado sua leitura há mais de cinco anos, só recentemente pude comprá-lo. O devorei em quatro dias, portanto está recomendadíssimo. Muito, muito bom!

Sacramento – Clive Barker

Uma obra poderosa e que merece uma leitura bastante atenciosa. Provavelmente tirará o seu sono.

O Clube do Fogo do Inferno – Peter Straub

Dessa lista, o prêmio de vilão mais instigante vai para Dick Dart, um filho da mãe com o qual você jamais iria querer bater um papinho. ;-)

Do Amor e Outros Demônios – Gabriel García Marquez

Li esse livro em um único dia. O estilo intenso e característico do GGM sempre conseguiu me prender. É um livro menor do que eu gostaria.

O Talismã – Stephen King e Peter Straub

O que acontece quando dois mestres da literatura fantástica se juntam para escrever um livro? O resultado é um puta dum livro que vai deixá-lo madrugadas inteiras sem conseguir pregar os olhos!

Coraline – Neil Gaiman

Um livro infantil não tão infantil assim. O livro foi comparado à Alice no País das Maravilhas; sua adaptação cinematográfica foi comparada aos trabalhos do Tim Burton. Minha opinião? Coraline é uma obra incomparável.

Stardust – Neil Gaiman

Um conto de fadas pré-tolkieniano muito divertido, narrado de modo como somente o Neil Gaiman conseguiria. Se você lê em inglês, então recomendo que leia esse livro em sua versão original.

As Crônicas de Nárnia – C. S. Lewis

Mea culpa. Nunca havia lido a obra de Lewis até esse ano (consegui o volume único das crônicas por uma pechincha), mas aqui está ela: entre os melhores livros que li em 2009. Ah, esse eu terei o maior prazer de ler para os meus filhos, à cabeceira de suas camas, enquanto eles esperam a visita de Morpheus.

 

Bem, em breve voltarei com os 10 piores que li em 2009 (sim, eles existem) e, talvez, com o plano de leitura para 2010. See ya, folks!

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segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Uma Nova Geração de Monstros

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É, não tem pra onde correr: Estou ficando velho. Quero dizer, hoje eu estou me sentindo assim. Acabo de ver o documentário Seu Nome é Jason e fiquei, digamos, um tanto abatido…Dá pra acreditar que eu pertenço à geração que viu Jason Voorhees nascer, morrer, renascer e remorrer? Pra piorar, não foi apenas ele, claro, também vi o Freddy Krueger, o Michael Myers, Pinhead, Leatherface e tantos outros… É impossível não lembrar com nostalgia as noites em claro, escondido embaixo de um cobertor aconchegante enquanto Jason caminhava lentamente (não, naquela época não tinha importância) ao encontro de suas vítimas… Freddy Krueger invadindo sonhos enquanto suas vítimas dormiam

“One, two, Freddy's coming for you.
Three, four, better lock your door.
Five, six, grab your crucifix.
Seven, eight, gonna stay up late.
Nine, ten, never sleep again.”

Dormir era estar vulnerável à influência do assassino pedófilo com lâminas no lugar dos dedos.

Medo era a palavra. Medo que foi aos poucos se transformando em ceticismo, em ironia. Estávamos crescendo. Nossa geração kichute estava começando a se interessar por coisas mais tangíveis, um futuro mais palpável, um emprego, um curso superior.

“Medo de Freddy? Faça-me o favor! Freddy não é nada comparado à possibilidade de deixar meu filho passando fome!”, poderia ter dito qualquer um, cheio de razão.

O tempo passou. Crescemos. Veio a outra geração, a geração que ficaria conhecida pela banalização de tudo, inclusive das relações humanas, a geração que cresceria em meio a ataques terroristas, corrupção política, violência real – O que sempre existiu, mas que nunca fora tão evidente, nunca fora tão palpável.

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A geração que cresceria entre vitrines de shoppings, celulares e computadores. A geração que não teria medo de monstros. Ou fantasmas.

A vida real, essa sim, era demasiado assustadora. Na verdade, os filmes de terror mais inimaginavelmente terríveis seriam um alívio, um lenitivo, diante da realidade-muito-mais-assustadora-na-qual-estamos-irremediavelmente-aprisionados.

Remakes – uma tentativa desesperada de trazer Uma Nova Geração de Monstros compatível com a personalidade dessas novas crianças: Um Jason que corre, um Michael Myers muito mais psicótico, um Freddy Krueger muito mais pedófilo.

Nossos antigos monstros imaginários muito mais parecidos com nossos monstros reais.

Suficiente para assustá-los? Não, claro que não. Eles se divertem e isso basta, isso paga o preço do ingresso.

 

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quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Uma Pequena Crítica aos Arautos da Razão

Tentar racionalizar o fantástico – me refiro aqui em sentindo amplo, e não em sentido estrito –, além de ser uma tarefa idiota, é um trabalho de Sísifo: Não dá em nada.

Recentemente, uma garota que sigo no Twitter fez a seguinte pergunta:

“Por que os filmes de batalha espaciais tem explosões tão barulhentas, se o som não se propaga no vácuo?” Sic.

Ora, não é uma pergunta tão incomum. Eu mesmo já tive oportunidade de ouvi-la repetidas vezes desde que comecei a andar com pseudo-intelecutais do tipo “cinema bom é cinema europeu; livro bom é livro que ninguém entende.” Cês sabem do que eu tô falando. 

A resposta que dei foi a resposta padrão para esse tipo de pergunta:

“Porque se eles colocassem cenas de batalha sem som nenhum, apenas com legendas do tipo cinema mudo: "Tzum! Tzum! BOOM!" Seria um saco!”

star wars wallpaper 5Agora tenta imaginar uma luta de sabre de luz sem aquele barulhinho: won, won, won!

 

Depois acrescentei:

“Tenta assistir Star Wars - O Império Contra-ataca com a tecla mute ativada e depois me conta.”

Ah, a garota confessou que era só encheção de saco depois disso. ;)

Bem, apesar de tudo, eu quero fazer uma pergunta a esses “reis da lógica”, esses “arautos da razão.”, pois é algo que eu realmente, por mais que me esforce, não consigo entender.

Pergunto:

Como é que uma pessoa aceita aliens, planetas esquisitos, duendes, elfos, trolls, animais falantes, fadas,  pessoas com super-poderes, ninjas da matrix, navios voadores, lutadores de kung-fu, demônios e toda uma gama de entidades extra-vida-real, e não aceita um fato bobo como: “o som se propagando no vácuo?

Pior que isso só quando eu fui ao cinema na estréia de O Senhor dos Anéis – A Sociedade do Anel, e um amigo comentou, ao ver que Frodo se safara (por causa de seu manto de mithril) da lança do troll:

“– Mentira do caramba!”

Ele só podia estar de brincadeira, certo? Bem, a má notícia é que ele não estava.

Stephen King também critica bastante isso. Quando o pessoal vem pedindo uma explicação lógica para determinado acontecimento, ele geralmente solta um: Você tá querendo racionalizar o terror? Faça-me o favor!

Faço minhas as palavras do mestre e acrescento que, se você realmente faz questão de racionalizar o fantástico, faça um favor a si mesmo: Pare de perder seu tempo e vá assistir a TV Senado!

Technorati Marcas: ,,

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segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Os 10 Melhores Começos de Livro da Literatura Fantástica

Inspirado em um post do Leonardo Pastor, do Vísceras Literárias, resolvi fazer uma pequena lista dos dez melhores começos de livros de literatura fantástica que já vi. Alguns eu considero verdadeiramente assustadores, outros nem tanto, mas são parágrafos fantásticos mesmo assim. ;)

Ah, uma observação: A lista não segue nenhuma ordem classificatória. Gosto de todos iguallmente.

Confira:

Qual foi a pior coisa que você já fez? Não vou contar, mas lhe direi qual foi a pior coisa que já me aconteceu... a mais terrível...

(Os Mortos Vivos, Peter Straub)

Ele chegou um dia antes de Karl Morrer.

(Violino, Anne Rice)

Os mortos têm suas estradas.

(Livros de Sangue Vol. I, Clive Barker)

Louis Creed, que perdera o pai aos três anos e jamais tivera um avô, não esperava encontrar um pai agora, quando estava chegando à meia-ida­de, mas foi exatamente isso que aconteceu... (Chamava-o, no entanto, de amigo, como deve fazer um adulto ao se deparar, relativamente tarde na vida, com o homem que poderia ter sido seu pai) Encontrou-o na noite em que se mudou, com a esposa e os dois filhos, para uma grande casa branca de madeira, em Ludlow. Winston Churchill mudou-se com eles. Church era o gato da filha Eileen.

(O Cemitério, Stephen King)

O terror, que só terminaria dentro de mais vinte e oito anos — se é que terminou — até onde sei ou posso contar, começou com um barco feito de uma folha de jornal, flutuando por uma sarjeta inundada pela chuva.

(A Coisa, Stephen King)

As fronteiras do nosso país, senhor? Como assim, senhor? Pelo norte, fazemos fronteira com a Aurora Boreal; pelo leste, com o sol nascente; pelo sul, com a procissão dos Equinócios; e, pelo oeste, com o Dia do julgamento Final.

(Deuses Americanos, Neil Gaiman)

Numa toca no chão vivia um hobbit. Não uma toca desagradável, suja e úmida, cheia de restos de minhocas e com cheiro de lodo; tampouco uma toca seca, vazia e arenosa, sem nada em que sentar ou o que comer: era a toca de um hobbit, e isso quer dizer conforto.

(O Hobbit, J.R.R. Tolkien)

Alice estava começando a se cansar de ficar ali sentada ao lado da irmã no barranco e não ter nada que fazer: uma ou duas vezes espiara o livro que sua irmã estava lendo, mas não tinha figuras nem diálogos, “e para que serve um livro”, pensou Alice, “sem figuras nem diálogos?”

(Alice no país das maravilhas, Lewis Carrol)

Rosana olhou para a casa do outro lado da rua. O endereço batia com o do cartão. Era ali mesmo. Sentia a garganta seca, seguida de um súbito mal-estar. A casa era um sobrado simples, mas muito bem conservado. As paredes pintadas de amarelo-ouro, amarelo-vivo, contrastavam com uma faixa estreita de jardim, bem verde e florido. Rosana perdeu a noção de quanto tempo ficou parada daquele lado da rua, encarando a casa, do outro. Examinava as pessoas da fila que se juntava, saindo pela porta principal e chegando ao calçamento. Deveria entrar na fila? Isso não fora explicado pelo entregador. Olhou novamente para o cartão. Simplório. Com o endereço na parte in­ferior. Uma única frase centralizada. Sem nome de ninguém. Sem pedido, sem indicação. Mas a frase é que apertava o peito. No meio do cartãozinho, com letras finas e impressão preta, lia-se: O alívio para o coração atormentado está aqui.

(A Casa, André Vianco)

Jessie podia ouvir a porta dos fundos bater levemente, erraticamente, à brisa de outono que soprava em volta da casa. Os portais sempre empenavam nessa época do ano e era preciso dar um puxão na porta para fechá-la. Desta vez eles tinham se esquecido. Pensou em mandar Gerald voltar e fechar a porta antes de se absorverem muito, senão aquele bate-bate ia deixá-la maluca. Então pensou que seria ridículo aquele pedido, nas presentes circunstâncias. Estragaria o clima todo.

(Jogo Perigoso, Stephen King)

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