Um Conto Fantástico Para o Haiti
O blog FC & Afins iniciou uma campanha para arrecadar fundos para ajudar o Haiti. Vários feras da FC e Fantasia nacionais estão colaborando com textos e pontes para facilitar doações de todos os tipos. Achei a campanha mais que justa e decidi que não poderia ficar fora dela, certo? Então, abaixo vai o meu conto.
Espero que gostem!
O Outro Lado do Espelho
“— Sonhos são sinistros. Todos eles. Até os bons...”
CAROL QUERIA ESTAR louca, mas ainda não sabia disso. Como qualquer criança de oito anos, o seu entendimento acerca do que significava loucura era bastante limitado, no entanto, ainda assim, algo a fazia perceber que qualquer coisa que se lhe apresentasse como uma explicação alternativa para o que estava sentindo seria melhor do que a realidade diante de seus olhos, por trás das pálpebras cerradas.
O que Carol estava sentindo chamava-se medo. Não um medo qualquer, desses que a gente sente quando começa a imaginar coisas que não deveríamos imaginar, quando é noite, quando estamos sós. Era uma assustadora certeza – a certeza de que quando abrisse os olhos ele estaria ali, do outro lado da cama, com suas órbitas vazias e sua pele azul.
Carol sentiu como se os seus ouvidos estivessem cheios de água. Suas mãos gorduchas e trêmulas seguraram o lençol com um pouco mais de força. Sabia que não adiantaria gritar, sabia que se gritasse ninguém a ouviria, isso já havia acontecido outras vezes.
Papaizinho do céu, por favor, não deixa que ele me pegue, não deixa que ele me...
Enquanto rezava mentalmente a mesma prece de todas as noites, o lençol parecia se tornar mais e mais apertado, quase sufocante.
... pegue. Não deixe que ele me...
Ela não agüentou a falta de ar e descobriu o lençol até o pescoço. Sua testa suava em bicos. Seus olhos estavam cerrados com tanta força que seus lábios ficavam esticados, como num sorriso esquisito. Então ela sentiu uma respiração gelada bem em seu rosto.
Papaizinho do céu!
Era uma respiração adocicada, com cheiro de flores, e gélida como a lufada de ar de um freezer cheio de sorvete. Sem hesitar um segundo, Carol abriu os olhos e o encarou.
O garoto a encarou de volta. Ficaram se olhando por um tempo. O garoto, com sua pele azul e seus olhos completamente negros – tão negros que eram quase indistinguíveis por trás da franja espessa de seus cabelos ensebados – não falou nada. Carol o encarava em transe, já não sentia medo, já não sentia nada.
— Meu nome é Nai-mu-ena — disse o garoto, com uma vozinha quase inaudível, tão aguda que parecia falar dentro da cabeça de Carol.
Ela tentou falar, mas tudo o que saiu de sua garganta foi um silvo sufocado.
— Você não pode falar — disse Nai-mu-ena —, mas você não precisa falar, eu entendo tudo. Eu sei tudo.
Ele encostou o indicador no nariz de Carol com o mesmo cuidado que se toca alguma coisa sagrada, intocável, e depois lambeu a ponta do dedo. Ficou olhando para sua mão azul por alguns instantes e então disse:
— Eu venho dali — e então apontou para o espelho grande do outro lado do quarto, com armação de mogno.
Carol mantinha os olhos esbugalhados fixos no rosto tristonho daquele garoto azul de nome engraçado. Não conseguia se mexer, não conseguia falar ou mesmo piscar, mas conseguia vê-lo perfeitamente bem.
— ...Tão estranho...
— Somos todos estranhos — disse Nai-mu-ena em resposta.
— O que você vai fazer comigo?
— Eu fui enviado.
— O que você vai fazer comigo?
— Levá-la de volta pra casa — E apontou para o espelho.
Ambos conversavam sem abrir a boca. Nai-mu-ena mantinha a expressão facial inalterável desde que chegara, era como se não tivesse nenhum tipo de sentimento.
— Você está preparada?
— Por que você quer me levar?
— Já lhe disse, eu fui enviado.
— Por quem?
— Não importa agora. Você está preparada?
Carol queria chorar, mas não conseguia; tentou gritar, mas sua voz não saiu.
— Você está preparada?
Nai-mu-ena não esperou resposta. Carol sentiu que seu corpo flutuava. Podia ver tudo, mas não conseguia mover um único músculo.
Meu papaizinho do Céu...
Nai-mu-ena não disse nada diante da prece de Carol, mas sua expressão finalmente se alterou. Ele lhe pareceu triste.
Ela percebeu que seu corpo se aproximava do espelho, sentiu os pés encostarem na superfície de vidro e serem tragados por ela, o espelho assumia uma constituição aquosa à medida que ela passava por ele, através dele.
Um cheiro adocicado foi se tornando cada vez mais forte. Nai-mu-ena ficou observando a menina ser levada e só depois que viu a pontinha loira da cabeça afundando na superfície aquosa, foi que ele finalmente pareceu satisfeito.
Nai-mu-ena caminhou calmamente e atravessou o espelho, que logo em seguida se partiu.
Roberto Denser
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Doações
Médicos Sem Fronteiras – doações no site
Nome: Embaixada da República do Haiti
Banco: Banco do Brasil
Agência: 1606-3
CC: 91000-7
CNPJ: 04170237/0001-71
Nome: Comitê Internacional da Cruz Vermelha
Banco: HSBC
Agência: 1276CC: 14526-84
CNPJ: 04359688/0001-51
Nome: Movimento Viva Rio
Banco: Banco do Brasil
Agência: 1769-8
CC: 5113-6
CNPJ: 00343941/0001-28
A ONG ambém está recebendo doações de medicamentos, alimentos enlatados, materiais de primeiros socorros e pastilhas de cloro para purificação de água para enviar a Porto Príncipe. As doações devem ser entregues na sede do Viva Rio, na Rua do Russel, 76, no bairro da Glória, no Rio, das 9h às 18h. A ONG está organizando um esquema de plantão para receber as doações no final de semana.
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